Money for nothing?

25 Outubro 2017 | Mercados

Quando temos uma subida contínua e longa dos preços dos ativos, os investidores tendem a ficar menos despertos para algo diferente. Também sentimos que não podemos ficar de fora da euforia e se está subir agora é porque vai subir mais ainda. Normalmente esta fase de exuberância transita para a já bem conhecida bolha. E nesta altura não faltam alertas de especialistas em futurologia e, mais do que tudo, em prever o óbvio.

 

Esta sensação de normalidade na subida transmite uma ideia de menor preocupação e por isso menores cuidados.

No entanto, há ainda outra frase batida que fica bem neste raciocínio: desta vez é diferente!

 

Bem, vamos aos factos.

Na maior parte das bolhas de mercado a que já assistimos, conseguimos apontar um tipo de ativo cujo preço tenha subido de forma vertiginosa: ações tecnológicas no final dos anos 90 ou preço das casas em meados de 2007-08, só para citar as mais recentes.

 

E aqui, a tal frase batida “desta vez é diferente” pode aplicar-se mas apenas no sentido de que neste momento estamos a experienciar um bull market em praticamente tudo o que é ativo.

 

Por exemplo, é notória a menor preocupação com o risco de crédito quando vemos o spread entre as yields das obrigações consideradas mais seguras (grau de investimento) e as obrigações mais especulativas (high yield) em níveis historicamente baixos;

No imobiliário, os preços dos ativos nunca chegaram tão alto em muitas regiões do mundo;

Os investimentos mais exóticos, como as cripto moedas, estão numa euforia desmedida. Ninguém quer perder esta subida e ser motivo de gozo por não ter aproveitado a “viagem”.

 

 

Há razões para esta subida?

 

Sem dúvida.

A política monetária está extraordinariamente expansionista. Taxas de juro historicamente baixas (em muitos casos negativas) e um programa massivo de compra de ativos (sim, ativos, pois não é só obrigações).

 

Há ainda os sinais dados por vários gestores de ativos desesperados por retorno. E aqui surgem as imprudências muitas vezes fatais como as emissões obrigacionistas de países como Venezuela ou Iraque.

 

A tendência de descida das taxas de juros de juro de longo prazo influencia os preços dos restantes ativos. A forte interferência dos bancos centrais não só acelerou esta tendência como distorceu fortemente os mercados de obrigações e, por contágio, o preço de outros ativos.

 

Claro que há fatores positivos que também estão a contribuir para esta euforia. O PIB global, no segundo trimestre, cresceu ao ritmo mais rápido desde 2010, principalmente devido a uma recuperação impetuosa dos mercados emergentes.

 

Apesar deste quadro aparentemente explosivo, a inflação não disparou o que pode ser interpretado como uma boa notícia pois se as yields estivessem baixas de forma injustificada, a inflação já teria disparado, certo?

Ou seja, há outros fatores, para lá da política monetária, que podem estar a ser a causa principal de taxas historicamente baixas e inflação baixa.

 

E aqui, talvez o mais importante seja o aumento da poupança (não incluir Portugal nesta reflexão) de uma população com maior esperança de vida, que poupam mais para uma reforma mais prolongada. Se a oferta de poupança aumentou o mesmo não se pode dizer da procura por poupança que desceu. De facto, com salários estagnados e preços mais baixos dos bens de investimento significa que as empresas acumulam cada vez mais dinheiro nos balanços e por isso menor necessidade de financiamento. Tudo isto sugere que as taxas de juro vão manter-se baixas tendo em conta o standard histórico.

 

Na maior parte dos tais que apontam para uma bolha prestes a rebentar, podemos encontrar alguns dos perigos que de facto podem provocar danos à economia mundial e, por conseguinte, aos mercados financeiros:

  • Uma crise de dívida na China
  • Política comercial e fiscal dos EUA
  • Crise na península coreana
  • Crise política na Europa (secessões, divisões, extremismo)

 

Prudência

 

Por um lado, e da parte dos bancos centrais, devemos esperar uma gradual retirada dos estímulos, bem como uma redução dos balanços (stock de ativos financeiros) e uma subida pausada das taxas de juro.

Por outro, e mais importante, devemos esperar uma atitude mais racional por parte de intermediários financeiros e investidores. Nomeadamente no controlo da alavancagem.

Pensar e estudar o passado não é apenas um exercício de história, é uma base indispensável para gerir expectativas sobre um futuro incerto e reforçar a margem de segurança para enfrentar as naturais adversidades que aparecem periodicamente.

 

Nota: esta reflexão são, naturalmente, reminiscências de leituras de artigos em jornais como The Economist, Financial Times, e outros, ou blogs como A Wealth of Common Sense.